domingo, 24 de setembro de 2017

Para quando as metas concretas (por empresa) e disciplina no sector empresarial público em Angola?

Essa foi a pergunta feita por nós quando explicamos na edição 421 de 12 de Maio do jornal Expansão que ‘disciplina’ era o que o sector público angolano necessitava. Assim sendo, não foi nossa surpresa ler na edição 439 de 15 de Setembro do Expansão que de um universo de 75 empresas públicas, 51 apresentaram as contas (das restantes 24 não se tem notícias) e ainda assim destas 51 empresas apenas 11, 21%, tiveram as contas aprovadas sem reservas. Notem que isso acontece apesar de no dia 21 de Julho 2015, o Expansão ter noticiado[1] que o ISEP, na pessoa do seu PCA, informou que “as empresas públicas deverão chegar até ao ano de 2017 com as contas homologadas sem reservas.” Existe prova maior de indisciplina?

Deste exercício subentendesse que existe uma desproporcional correlação de forças entre a instituição que deve controlar o sector empresarial público i.e. o ISEP e a gestão das empresas publicas angolanas i.e. o Conselho de Administração dessas empresas. Até agora tudo indica, pelos resultados divulgados, que a gestão do ISEP não tem o mesmo capital político i.e. apoio da superestrutura governativa, de que parecem gozar os gestores dessas empresas públicas que teimam em não prestar contas da sua gestão. Será que este quadro vai mudar quando o presidente eleito for empossado? A ver vamos!

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Desvalorização do Kwanza condição para a retoma do crescimento económico em Angola?

Temos acompanhado com alguma atenção o debate em torno da necessidade de se desvalorizar o Kwanza, como forma de reduzir-se a pressão sobre as reservas internacionais líquidas (RIL), e assegurar a retoma do crescimento económico em Angola. Contudo, não podemos deixar de assinalar que nesta conversa está-se a perder de vista o facto de que hoje em Angola o acesso a moeda externa é fortemente controlado pelo Banco Nacional de Angola nas vestes de banco central e isso tem outras implicações.

Partimos do princípio que compreendemos, para o caso de Angola, que um Kwanza forte pode ser bom (a curto prazo) para os consumidores que têm as suas poupanças em moeda nacional mas que, a longo prazo, acaba por desencorajar a produção nacional, fazendo acentuar ainda mais a dependência dos recursos financeiros provenientes da venda de recursos naturais para sustentar a importação de produtos acabados. Esta situação num contexto em que as RIL de Angola registam uma queda progressiva desde 2013 não seria viável. Uma solução, muitas vezes proposta, passa por desvalorizar a moeda nacional, por formas a tornar mais competitiva a produção nacional e desta forma incentivar a exportação, e por essa via enfraquecer o poder de importação de produtos acabados.

O problema desta solução, no actual contexto angolano, não é apenas o processo eleitoral em curso e o custo político que uma medida de desvalorização da moeda acarreta. Existe a necessidade de compreendermos que em Angola existe uma forte restrição no acesso a moeda externa e isso faz com que contrariamente ao que nos indicam os manuais i.e. desvalorização da moeda (A) à dificulta acesso a divisas (B) à redução das importações (C) àincentiva a produção local de bens e serviços (D) de onde se depreende que B (dificultar acesso a divisas) é necessário para D (incentivar a produção local de bens e serviços) ter lugar, podemos afirmar que já existe B (dificuldade de acesso a divisas) sem A[1] (desvalorização da moeda). Tal posição está visível no OGE de 2016 Revisto onde se explica, na página 16, que “ [e]m 2013, a importação de alimentos cifrou-se em USD 450 milhões, USD 465 milhões, em 2014; em 2015, a importação de alimentos caiu severamente cerca de 27,%, passando para USD 338 milhões.” Pelo que, propor A (desvalorização da moeda) como solução para D (incentivar a produção local de bens e serviços), em nosso entender, pode não ser a melhor opção.

Desvalorizar o Kwanza nesse contexto poderia ter um efeito adverso naquelas indústrias que precisam de (1) renovar os equipamentos, (2) assistência técnica especializada temporária num contexto de renovação de equipamentos, (3) por tempo determinado importar matéria-prima localmente indisponível. Esta posição (1 e 2) é sustentada pelo Anuário de Estatística de Comércio Externo-2016 do INE que nos indica que a importação de máquinas e aparelhos representa 24,71% da estrutura de importação de Angola (a maior fatia). Como nos explica David Ricardo na sua obra On the Principles of Political Economy and Taxation (pág. 271) o país que não investe em maquinaria, i.e. tecnologia, acaba por exportar capital para os países que assim procedem uma vez que a produção local de bens e serviços deixa de ser competitiva.  

Numa outra comunicação[2] indicamos que a intervenção do banco central i.e. o BNA, neste cenário, deveria ser no sentido de “capitalizar preferencialmente o sector produtivo”, através da identificação (por meio de uma politica industrial selectiva gizada pelos órgãos competentes do Executivo) “daquelas indústrias que se mostrassem viáveis de a médio prazo tornarem-se competitivas a nível regional e global, com forte potencial de crescimento no que toca a criação de empregos (necessários para as economias em transição), receitas e volume para exportação” trazendo divisas para economia. Tal medida acoplada a uma política de incentivo ao repatriamento dos dividendos dos investimentos angolanos no exterior (em 2015 passou a fasquia dos 20.000 milhões de dólares norte-americanos, quando neste momento as RILs de Angola situam-se a volta dos 18.026 milhões de dólares norte-americanos) contribuiria para que as empresas fizessem “o fluxo financeiro das divisas para a economia” conforme desejo expresso pelo senhor Governador do BNA numa entrevista.

Contudo, se olharmos para os dados do Anuário de Estatística de Comércio Externo-2016 notamos que os combustíveis representam 92,97% das exportações e que contrariamente ao que nos apresenta as Linhas Mestras para a Definição de uma Estratégia para a Saída da Crise Derivada da Queda do Preço do Petróleo No Mercado Internacional os produtos identificados como exportáveis a curto prazo continuam a espera de melhores dias.

Apresentado desta forma podemos ver que não se está a fazer chegar recursos a aqueles sectores e produtores que poderiam rapidamente gerar um efeito multiplicativo essencialmente por via do aumento da demanda intersectorial[3]. De facto, um estudo feito pelo BNA em 2013, Estudo do Desenvolvimento Equilibrado da Função de Crédito na Economia Angolana, mostra-nos que deixar que o mercado regule por si só o processo de alocação de recursos (no caso crédito) num país em transição, como Angola, parece ter impossibilitado que o sector produtivo, aquele capaz de gerar empregos sustentáveis em especial para a juventude, tivesse os recursos financeiros de que necessita para se reerguer e transformar a economia. Ao invés disso, o BNA, através deste estudo, identifica o sector de serviços seguido do comércio como os maiores beneficiários de crédito em Angola. Pelo que, mais do que priorizar uma desvalorização da moeda para retoma do crescimento económico, Angola, através do BNA e do seu Governador, precisa sim de rever o actual processo de alocação de divisas. Acreditamos que continua ainda válida a questão colocada anteriormente2 i.e. “terá o BNA e o seu Governador a capacidade de monitorizar e assegurar que as divisas disponibilizadas sejam canalizadas para o sector produtivo e não usadas na aquisição de propriedades e bens de luxo no exterior?” a resposta até ao momento, infelizmente, não é positiva.

* Versão anterior foi publicada no Novo Jornal online e esta disponível aqui:




[1] Se tivermos em conta as variações da taxa de câmbio BNA podemos dizer que tem havido uma desvalorização tímida (2013 taxa média Kz/USD 97.619 Dez.; 2014 taxa média Kz/USD 103.069 Dez.; 2015 taxa média Kz/USD 135.315 Dez.; 2016 taxa média Kz/USD 165.903 Dez.) contudo é assinalável a grande discrepância com relação ao mercado informal.
[2] Wanda, F. (2017) 'Papel do BNA em tempo de crise - Convidado', Expansão, Edição 419 28 Abril.
[3] Que poderia, por exemplo, contribuir para substituir a necessidade de importação de matéria-prima apresentada no para. 3.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O novo canal fluvial, de 40 milhões de USD, entre Angola e Zâmbia vai ter retorno?

Lemos com algum cepticismo[1] que o novo canal fluvial entre Angola (Rivungo, Kuando-Kubango) e Zâmbia (Shangombo), cuja obra esteve avaliada em 40 milhões de USD, iria impulsionar o comércio transfronteiriço entre os dois países bem como estimular o turismo. Como já havíamos assinalado no post de 14 de Junho 2015, “a grande maioria dos países africanos são produtores de produtos primários i.e. matéria-prima” o que torna o comércio intra-africano exíguo. 

Para que o comércio fosse de facto impulsionado seria necessário saber se foi previamente feito um estudo sobre os produtos, para além do petróleo, que Angola poderia exportar de forma competitiva para a Zâmbia. Isso porque sabemos que a África do Sul (de certa forma também o Zimbabwe) não só tem empresas com operações neste país, exemplo a Shoprite e a SABMiller, como também exportou para Zâmbia em 2015 um volume avaliado em 2.67 mil milhões de USD[2]. Apesar da extensa fronteira terrestre Angola não figurava entre os cinco (5) maiores exportadores para Zâmbia em 2015 (lista2 liderada pela África do Sul, integrando ainda por ordem de importância a República Democrática do Congo, China, Ilhas Maurícias e o Quénia).

Ao consultarmos alguns colegas do outro lado da fronteira, ficamos a saber que o nosso cepticismo era partilhado pelos experts de lá que encaram esse projecto como mais um dos vários (como o Terminal Mineiro no Porto do Lobito) que, no entender dos mesmos, talvez não fossem prioritários. Visto desta forma, acreditamos ser chegado o momento de o Executivo angolano rever o seu modelo de avaliação dos investimentos públicos avultados em infra-estruturas que poderão levar muito tempo a darem retorno ou que com tempo revelar-se-ão inconvenientes. Do nosso lado, no que respeita ao canal, esperamos que a nossa previsão esteja errada para o bem de Angola.



[1] Novo Jornal Online publicado 29/06/2017
[2] Fonte: The Observatory of Economic Complexity http://atlas.media.mit.edu/en/profile/country/zmb/ (Acedido: 1 Agosto 2016).

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Juventude e Desenvolvimento: João Lourenço e a emigração de jovens africanos.

No nosso primeiro post sobre este tema[1] reflectimos sobre os desafios que o crescimento da população jovem africana, que passará de 230 para 452 milhões até 2050[2], representava para África em geral e muito particularmente para Angola, onde se vislumbra uma estratégia de disponibilização de kits de auto-emprego ao invés de se adoptar o que temos chamado neste blog de uma política industrial selectiva por formas a dinamizar aquelas indústrias intensivas em mão de obra (ex.: indústria têxtil e confecções, alimentar) capazes de proporcionar a sua população mais jovem uma melhor perspectiva de vida através de um emprego sustentável no sector formal da economia.

Ao lermos[3] que João Lourenço, candidato a Presidente da República pelo partido MPLA nas próximas eleições de 23 de Agosto 2017, durante a 29.º Cimeira de Chefes e Estado e de Governo da União Africana, alertou que "Estamos a assistir com alguma apreensão à emigração dos nossos jovens, sobretudo para a Europa, em condições bastante perigosas e, diria mesmo, vergonhosas" fez-nos relembrar que, ainda olhando para o contexto angolano, o problema não está nos jovens mas sim na estratégia adoptada por quem tem por obrigação ‘resolver os problemas do povo’! No nosso artigo[1] indicamos que Angola tem uma população maioritariamente jovem e como tal não pode o Executivo ficar alheio a essa realidade devendo para tal assegurar que os projectos de desenvolvimento sejam priorizados tendo em conta os empregos a gerar (para a juventude), receitas fiscais (para haver mais para investir em outros sectores) e volumes de produção (substituindo as importações e promovendo as exportações). Infelizmente esta não tem sido a realidade material em Angola e em muitos outros países africanos.

Fruto dessa realidade, i.e. falta de políticas que ajudem a promover, como indicado, as indústrias intensivas em mão de obra, existe um nível de desemprego considerável em África e muito particularmente entre a população jovem do continente. Como resultado houve um aumento de conflitos armados (Sudão do Sul, República Centro Africana), aumento da violência religiosa extremista em países como a Nigéria, Somália, Mali, falasse mesmo num certo retrocesso nos processos democráticos a nível do continente (ex.: República Democrática do Congo, Burundi). Em Luanda, verificamos um aumento da criminalidade e do comércio ambulante precário. Apresentado desta forma, hoje a “emigração dos nossos jovens, sobretudo para a Europa, em condições bastante perigosas e, (…), vergonhosas” como assinala João Lourenço (o candidato do MPLA a PR) é, em nosso entender, o mal menor para muitos países africanos.

Para o caso de Angola, a luz das próximas eleições, a solução passa por exigir que os partidos políticos apresentem nos seus programas de governação propostas concretas que ajudem a juventude a transformar-se no motor do desenvolvimento (através do acesso ao emprego de qualidade) ao invés de manterem o status quo e vê-la a transformar-se numa enorme ameaça. Voltamos a lançar o desafio!



[1] Nós abordados este tema em primeira mão como: Wanda, F. (2017) “Se África Está no ‘Ponto de Inflexão’, O Que Será da Juventude em Angola: Ameaça ou Força para o Desenvolvimento? – Analise”, Novo Jornal (online) disponível online: http://www.novojornal.co.ao/artigo/77218/se-africa-esta-no-ponto-de-inflexao-o-que-sera-da-juventude-em-angola-ameaca-ou-forca-para-o-desenvolvimento-analise?seccao=NJ_AFR
[2] O Relatório Africa at a Tipping Point (África no Ponto de Inflexão) pode ser encontrado aqui: http://mo.ibrahim.foundation/forum/downloads/
[3] Novo Jornal Online publicado 04/07/2017.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Juventude e Desenvolvimento: O Grande Desafio da Governação em Angola*.

O Relatório “Africa at a Tipping Point”[1] (África no Ponto de Inflexão) apresentado e discutido no Fórum sobre Governação em África, 2017 realizado em Marraquexe, Marrocos sob a égide da Fundação Mo Ibrahim indica que até 2050 a população jovem no continente passará de 230 para 452 milhões, fazendo com que nesta data metade da população africana esteja abaixo dos 25 anos de idade.

Tendo Angola uma população maioritariamente jovem, não pode o Executivo ficar alheio a essa realidade devendo para tal, em nosso entender, assegurar que os projectos de desenvolvimento sejam priorizados a nível dos empregos a gerar (para a juventude), receitas fiscais (para haver mais para investir em outros sectores) e volumes de produção (substituindo as importações e promovendo as exportações).

Angola, contrariamente a actual política de disponibilização de kits de auto-emprego, precisa de rapidamente adoptar uma política industrial selectiva por formas a dinamizar aquelas indústrias intensivas em mão de obra (ex.: indústria têxtil e confecções, alimentar) capazes de proporcionar a sua população mais jovem uma melhor perspectiva de vida através de um emprego sustentável no sector formal da economia. De facto esse parece ser o caminho, como nos indica o Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial elaborado pelo Banco Mundial em 2013 e que pela primeira vez aborda a questão do emprego. Neste relatório vemos que a medida que os países se desenvolvem o auto-emprego reduz e aumenta o emprego assalariado. O Executivo não pode desejar para Angola o caminho inverso!

Vamos agora esperar para ver as propostas que os partidos políticos nacionais irão apresentar nos seus programas de governação. Contudo, independentemente de quem venha a ganhar e governar o repto será o mesmo i.e., fazer com que essa juventude se transforma no motor do desenvolvimento ou manter o status quo e vê-la transformar-se numa enorme ameaça. Está lançado o desafio!




*Uma versão foi publicada anteriormente como: Fernandes Wanda (2017) “Se África Está no ‘Ponto de Inflexão’, O Que Será da Juventude em Angola: Ameaça ou Força para o Desenvolvimento? – Analise”, Novo Jornal (online) disponível online: http://www.novojornal.co.ao/artigo/77218/se-africa-esta-no-ponto-de-inflexao-o-que-sera-da-juventude-em-angola-ameaca-ou-forca-para-o-desenvolvimento-analise?seccao=NJ_AFR
[1] O relatório pode ser encontrado aqui: http://mo.ibrahim.foundation/forum/downloads/

quarta-feira, 10 de maio de 2017

A Politica Cambial na Óptica do Presidente da República: O que ficou por ser dito?*

Ao lermos neste diário (online) um artigo em que o Presidente da República (PR) nas vestes de Presidente do MPLA explicou a razão da não “adopção de medidas cambiais e monetárias clássicas” nessa fase de crise que Angola vive, achamos por bem reflectir, de uma forma breve e acessível, o que ficou por ser dito.

Apesar de concordarmos, em parte, com o argumento apresentado pelo PR não podemos deixar de assinalar que contrariamente ao que foi dito as medidas apontadas poderão não estar a “atender melhor as necessidades da população e da economia”, por quê?

O PR diz no seu pronunciamento, e aceitamos, que desvalorizar a moeda iria “desacelerar o investimento privado indispensável à diversificação sustentável da nossa economia”. Contudo, hoje é inegável que existe uma desaceleração do investimento privado em Angola com particular ênfase nas indústrias do sector produtivo devido a vários factores, indicados pelos próprios empresários[1], a saber: (1) redução do investimento público, (2) dificuldades de acesso a moeda estrangeira, (3) dívida do Estado e (4) agressiva medida de cobrança de imposto por parte da AGT – Administração Geral Tributária. Todavia, vale recordar, que o sector do comércio a retalho (formal) parece estar a expandir-se atendendo aos recentes anúncios de abertura de novos estabelecimentos das redes Shoprite, Candando e Kero (apenas para citar os de maior dimensão).

O que é que isso nos indica? Apesar do discurso político apontar para “medidas concretas para o fomento da produção nacional” o facto de não sabermos de que produtos e produtores se tratam para um melhor acompanhamento e respectiva exigência de resultados (afinal, como nos ensina a ciência de gestão, não se gere o que não se mede), temos a assinalar que dos 10 produtos mais importados, no 1º semestre de 2017, segundo dados do Conselho Nacional de Carregadores (CNC), 7 produtos são do ramo alimentar e incluem o açúcar, óleo de palma, farinha de cereais e massas alimentares. Saíram desta lista produtos como a Cerveja de malte. Precisamos fomentar a produção alimentar.

Um processo de produção interna bem articulado deveria permitir, tendo como base os dados do CNC, Angola mudar esse quadro produzindo o que consome. Por outras palavras, da lista dos produtos mais importados o Executivo Angola deveria elaborar um plano de acção para retirar dela os produtos alimentares. Infelizmente este exercício não foi feito no Plano de Desenvolvimento 2012-2017. Num outro fórum indicamos que isso só seria possível caso o Executivo adoptasse uma política industrial selectiva[2]. Uma política industrial selectiva permitiria ao Executivo intervir no processo de identificação, dentro do sector produtivo, primeiro daquelas fileiras (a nível da agricultura e indústria) que se mostrassem viáveis de a curto/médio prazo tornarem-se competitivas com forte potencial de crescimento no que toca a criação de empregos (necessários para as economias em transição), receitas e volumes também para exportação. Dentro das fileiras com potencial de crescimento, teriam acesso ao crédito apenas os empreendedores que assumissem o compromisso de atingirem metas predefinidas (metas de emprego, receitas fiscais e volume de exportação).  

Enfim, apesar de concordarmos que a política cambial ajustasse ao actual contexto, a nossa breve análise parece indicar que as medidas complementares, devido a ausência de uma certa articulação dos planos (exemplo: tratar de produzir o que mais se importa), não estão a ser tomadas e Angola poderá estar a produzir algo que não vai ajudar a reduzir essas mesmas importações. Pelo que, hoje talvez mais do que nunca, algumas das ‘velhas’ palavras de ordem como, disciplina, disciplina, disciplina, produção, produção, produção, deveriam nortear as acções do Executivo Angolano.



*Uma versão foi publicada anteriormente como: Wanda, F. (2017) 'A Politica Cambial na Óptica do PR: O que ficou por ser dito? – Analise', NovoJornal (online) disponível:  http://www.novojornal.co.ao/artigo/77162/a-politica-cambial-na-optica-do-pr-o-que-ficou-por-ser-dito-analise?seccao=NJ_Eco
[1] Este assunto foi objecto de debate em alguns programas radiofónicos.

terça-feira, 18 de abril de 2017

A Dívida do Estado e o Desempenho das Empresas

Temos estado a ouvir muitas reclamações de empresários nacionais sobre a forma dura que o Executivo angolano, através da AGT – Administração Geral Tributária afecta ao Ministério das Finanças, está a cobrar os impostos devidos. Dizem os empresários que o Estado é o maior devedor e não paga o que deve a tempo. Contudo, exige o pagamento atempado dos impostos! Dada a gravidade da situação, dedicamos este post a uma pequena reflexão sobre o assunto dando algumas pistas na busca de soluções.

Estado consumidor
O facto de os empresários estarem de mãos atadas perante este impasse mostra mais uma vez que em Angola não existe um mercado de consumo sustentável fora do Estado, i.e., o estado é ainda o maior consumidor e como tal o motor da economia. Por quê é isso acontece? Sendo Angola um país em transição (guerra para paz) o poder económico por razões históricas ficou centralizado no Estado. Existe a necessidade de se mudar esse quadro através, normalmente, do fomento da actividade empresarial privada. Havendo este fomento as empresas que hoje têm 80% – 90% do seu negócio com o Estado poderão traçar estratégias de redução passando a prestar bens e serviços para outras empresas e famílias. É importante esclarecer que o problema essencial está na produção de bens e serviços e não no facto da empresa do sector produtivo ser estatal ou privada. Por outras palavras o problema de Angola é tratar de produzir o que consome!
Em resumo: numa economia em transição é natural o Estado ser o maior consumidor. Contudo, cabe também a esse mesmo Estado gizar um programa com metas bem definidas onde se possa realizar uma mudança faseada para o aumento do consumo por parte do sector empresarial privado e famílias. Isso só é possível e sustentável aumentando a base produtiva da economia.

Consumo familiar
Para que as famílias tenham um aumento do seu consumo é necessário que elas tenham igualmente um aumento do seu rendimento. Infelizmente este não tem sido o caso para a maior parte da população em Angola uma vez que o poder de compra do salário diminui cada vez mais devido a inflação e desvalorização monetária. Daí a política do hard Kwanza (i.e. kwanza sobrevalorizado).
Uma política de (sobre)valorização do Kwanza contribuiu para o aumento do consumo das famílias mas pode, por norma, prejudicar a produção local de bens e serviços já que permitiria a importação dos mesmos a partir do exterior a um preço normalmente mais competitivo do que é oferecido no mercado local. Contudo, vale aqui explicar que essa importação só é possível havendo disponibilidade de divisas o que não é o caso de Angola nesta fase. Por outras palavras neste momento em Angola as necessidades de consumo não podem ser facilmente satisfeitas via importação devido as restrições cambiais (acesso aos dólares). Outra solução passa então pela redução da inflação, caracterizada pelo aumento dos preços devido a um aumento da procura e redução da oferta. Para tal existe a necessidade de se aumentar a oferta, i.e. aumentar a produção local de bens e serviços. Tal aumento implica um maior investimento no sector produtivo tirando vantagens das melhorias feitas nas infra-estruturas básicas (agua, luz, estradas) e acesso ao financiamento (crédito).

Estado devedor: O impasse…
Angola está perante um ciclo indecoroso onde o Estado não paga os bens e serviços que consome porque não recebe dos impostos que cobra o dinheiro suficiente para cobrir as suas despesas. As empresas não pagam mais impostos porque estão endividadas fruto da falta de pagamento do Estado. A solução passa por identificar aquelas empresas que actualmente não pagam impostos e cobrar, identificar as empresas que pagam menos do que deviam pagar e igualmente cobrar. No que toca as despesas, o Estado em Angola é conhecido por esbanjar recursos. Em tempos de crise devesse aumentar o rigor e qualidade das despesas bem como investir em actividades que garantam um maior retorno do capital.

O Estado tem que reduzir a sua dívida perante o empresariado local. Se houver a necessidade de reduzir e/ou anular alguns impostos (ou reduzir o valor a cobrar), conforme sugerido por alguns empresários, que tal redução seja condicionada a resultados a saber: empregos, aumento dos volumes de produção que permitam a substituição das importações e receitas através da exportação. Em nosso entender para um melhor controlo deste tipo de incentivo, o mesmo só seria atribuído após apresentação dos resultados previamente acordados, i.e. primeiro os empresários teriam que mostrar que criaram os empregos prometidos, que aumentaram o volume de produção (cabendo ao Executivo accionar os mecanismos para proporcional redução das importações) e avançaram para exportação dos excedentes (cabendo igualmente ao Executivo dar suporte a tal intenção).


Enfim, o problema de Angola como já argumentamos antes, ex.: 14 de Julho de 2016, passa, por um lado, pela execução de uma política de expansão da base produtiva. Por outro lado se taxation is the state (traduzindo: os impostos fazem o Estado) aumentando a base produtiva aumentasse os valores dos impostos a arrecadar pelo Estado. Contudo, como qualquer consumidor, o Estado tem que pagar o que deve!