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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Angola está numa encruzilhada!*


Apesar do discurso político em Angola apregoar um certo pragmatismo na definição de uma estratégia para o desenvolvimento do país, as acções práticas têm vindo a se revelar bastante enraizadas numa ideologia neoliberal, diga-se mesmo anistórica e irrealista[1], em que deseja-se para o Estado, numa economia em transição, um mero papel de ‘coordenador e regulador’ da actividade económica. Tal visão contrasta com o resultado obtido em outras realidades como, por ex., a de Singapura, país que ocupa o 3º lugar no Índice de Competitividade Global 2017 – 2018. Em Singapura 90% das terras do país são propriedade do Estado; 85% das casas são propriedade do Estado; e 22% do PIB é produzido por empresas públicas[2]! Este e outros exemplos, como nos explicam especialistas como Ha-Joo Chang, mostra que havendo disciplina e uma componente de condicionalidade com cláusulas explícitas de penalização para os gestores públicos em caso de incumprimento das metas definidas, as empresas públicas podem tornar-se tão rentáveis como qualquer projecto privado. Por que não em Angola?


As associações empresariais pedem que o Executivo regularize as suas dívidas junto dos seus filiados. Os industriais angolanos indicam a falta de matéria-prima, falta de água e energia eléctrica como os principais problemas. Pelo que, (1) regularizar a dívida e assegurar que a despesa pública, i.e. contratação de bens e serviços, contribua igualmente para redução das importações, devem merecer a atenção do Estado em 2019; (2) uma melhor rentabilização dos perímetros irrigados existentes em Angola poderia contribuir para produção local de matéria-prima e redução da importação de produtos alimentares; (3) dotar os pólos industriais, por ex.: de Viana e Catumbela, de infra-estruturas adequadas bem como facilitar a instalação de futuros investimentos na Zona Económica Especial (pensando já na exportação) poderiam permitir aos investidores produzirem com um custo mais competitivo. Sim, Angola está mesmo numa encruzilhada.

A ausência de acções pragmáticas visando a rápida industrialização de Angola é também agravada pela introdução de outros produtos primários, para além do petróleo e diamantes, como a banana, café, rochas ornamentais, madeira como solução para o problema da diversificação das exportações conforme preconizado pelo Executivo através do PRODESI. Adoptar uma postura semelhante a de países como a Etiópia[1], i.e., atrair investidores (nacionais e estrangeiros) interessados em tirar o maior proveito possível de programas como o AGOAAfrica Growth Opportunity Act dos E.U.A. e a possibilidade que a União Europeia dá aos países de rendimento baixo de exportarem com isenções para a zona Euro tudo excepto armas, isso antes de Angola ser adversamente graduada em 2021 pela ONU em país de rendimento médio ancorado no petróleo,  mostra-se necessário.

A solução requer uma missão, vontade política e exige disciplina uma sinergia entre o sector público e as associações empresariais nacionais envolvendo as instituições de ensino e pesquisa. Enfim, hoje mais do que nunca seria talvez conveniente resgatar algumas das velhas palavras de ordem como, disciplina e produção. Afinal, Angola está numa encruzilhada!

*Versão anterior publicada em:
Wanda, F. (2018) ‘Angola está numa encruzilhada! Expansão, Edição 504, 21 Dez. http://www.expansao.co.ao/artigo/107645/angola-esta-numa-encruzilhada-?seccao=7  

[1] Wanda, F. (2018) Fútila em Angola versus Adama na Etiópia: Um ineficiente Estado dificilmente leva o sector privado à prosperidade.Expansão, Edição 502, 7 Dez.

[1] Wanda, F. (2017) 'Solução da crise económica angolana? Disciplina, disciplina, disciplina!', Expansão, Edição 421, 12 Maio.
[2] Economista Ha-Joo Chang  numa entrevista no jornal El País, Jan. 2018.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Faça algo diferente!*


Recentemente realizou-se na África do Sul mais uma cimeira dos países emergentes chamados, desde 2011, na sigla inglesa de BRICS - Brasil, Rússia, Índia, China e o país anfitrião a África do Sul. Muito se passou desde que em 2001 o Goldman Sachs[1] juntou um grupo de países, que na altura estavam a ter um crescimento assinalável, criando desta forma os BRICs (sem a África do Sul). Mais tarde estes convidaram para o grupo a África do Sul, o que conferiu de certa forma a sua legitimidade como porta-voz dos países em desenvolvimento e contrapeso dos países ricos.  

Para a cimeira de Joanesburgo Angola foi convidada também por ser o País que preside, de momento, o Órgão de Cooperação Política, Defesa e Segurança da SADC, fazendo-se representar pelo Chefe do Executivo o Presidente João Lourenço. Vale recordar que já em 2013 na cimeira de Durban, África do Sul, Angola esteve igualmente presente.

Nesta cimeira, João Lourenço assinalou dois aspectos de interesse sendo (1) a vontade de um dia Angola juntar-se ao grupo e (2) a sua crença “que na actual conjuntura da globalização e das tecnologias da informação e comunicação, os nossos países poderão saltar etapas, encurtando desta forma o caminho do progresso e do desenvolvimento”. Ora bem, é importante compreendermos que qualquer processo evolutivo obedece certas fases i.e. a natureza não salta etapas, todavia, a evidência empírica mostra que a globalização dá acesso a exemplos a seguir, cabe depois aos países empreenderem acções pragmáticas visando a sua rápida industrialização, materializando-se essa visão do Presidente João Lourenço num espaço de tempo reduzido.

Não é por acaso que cada País dos BRICS possui um parque industrial e tecnológico expressivo para sua condição de País emergente. Tal só foi possível graças a intervenção selectiva do Estado. Por exemplo o Brasil para além de ter uma agro-indústria forte, criou a Embraer e com ela quebrou um segmento dominado pelas mais experientes e financeiramente mais bem dotadas Boeing e Airbus. A Índia no ramo automóvel tem marcas como a Mahindra comercializada em quase todo mundo incluindo Angola. A Rússia, herdeira do império Soviético, tem na indústria de defesa e aerospacial um sector tecnologicamente bem desenvolvido. A África do Sul é simplesmente a economia mais industrializada a sul do Saara. Angola só tem a ganhar se souber gerir melhor o seu relacionamento histórico com cada um deles.

Sobre a necessidade dos países africanos tirarem um melhor proveito desta aproximação com os BRICS, o ex-Economista Chefe do Banco Mundial o chinês Justin Lin, assinalou a alguns anos que devido a necessidade da China diminuir a sua dependência dos mercados externos dinamizando o consumo interno, haveria uma pressão para se aumentar os salários. Desta forma seriam libertados cerca de 80 milhões de empregos no sector da indústria manufactureira[2] que havendo condições poderiam deslocar-se para África.

Países como o Vietname e Mianmar, dada a proximidade e tendo criado políticas específicas, já estão a receber algumas dessas empresas. Através das nossas pesquisas[3] identificamos que um País africano que tem sabido tirar proveito desta situação é a Etiópia. Ao contrário do Executivo em Angola, que construiu pólos de desenvolvimento industrial i.e. Viana e Catumbela sem estarem devidamente infraestruturados e perímetros irrigados improdutivos, o Governo Etíope, através de um processo de ensaio e erro, tem estado a promover parques industriais de qualidade assinalável. O mais recente Hawassa é já considerado um exemplo, prevê gerar cerca de USD 1,000 milhões/ano em receitas e empregos para 60.000 jovens Etíopes[4]. Através de um processo selectivo de intervenção e uma dose de pragmatismo a Etiópia é hoje uma das economias que mais cresce no mundo. De 2005-2016 o seu PIB cresceu em média 10.5%.

Um outro País que está a trilhar o mesmo caminho é o Ruanda. De facto, no nosso mais recente trabalho de campo foi-nos facilitada uma visita a Zona Economica Especial de Kigali e podemos ver in loco os desenvolvimentos já alcançados.

Enfim, não basta o Chefe do Executivo mostrar vontade é necessário assegurar que ela seja transformada em políticas e traduzidas depois em acções concretas. Todavia, como temos assinalado nas nossas reflexões neste espaço, na ânsia de marcar uma nova etapa no desenvolvimento de Angola o Executivo denota uma certa crise existencial. Independentemente da estratégia a adoptar é imperioso que se compreenda que fazer mais do mesmo e ainda assim esperar um resultado diferente leva-nos a lugar nenhum!

*Publicado anteriormente: Wanda, F. (2018) ‘Faça algo diferente!’ Expansão, Edição 484, 3 Ag. http://www.expansao.co.ao/artigo/98959/faca-algo-diferente-?seccao=7.


[1] Goldman Sachs (2001) ‘Building Better Global Economic BRICs’. Global Economics Paper, Nov. 30.
[2] Citado pela Bloomberg (22/07/2014)
[3] F. Wanda, & C. Oya (2016) “Um Estudo sobre as Empresas Industriais e de Construção e as Dinâmicas de Emprego em África”, Revista Socioeconomicus Nº 3 (FEC-UAN).
[4] M. Schwikowski (2017) ‘Ethiopia: East Africa's new economic power’.

terça-feira, 18 de abril de 2017

A Dívida do Estado e o Desempenho das Empresas

Temos estado a ouvir muitas reclamações de empresários nacionais sobre a forma dura que o Executivo angolano, através da AGT – Administração Geral Tributária afecta ao Ministério das Finanças, está a cobrar os impostos devidos. Dizem os empresários que o Estado é o maior devedor e não paga o que deve a tempo. Contudo, exige o pagamento atempado dos impostos! Dada a gravidade da situação, dedicamos este post a uma pequena reflexão sobre o assunto dando algumas pistas na busca de soluções.

Estado consumidor
O facto de os empresários estarem de mãos atadas perante este impasse mostra mais uma vez que em Angola não existe um mercado de consumo sustentável fora do Estado, i.e., o estado é ainda o maior consumidor e como tal o motor da economia. Por quê é isso acontece? Sendo Angola um país em transição (guerra para paz) o poder económico por razões históricas ficou centralizado no Estado. Existe a necessidade de se mudar esse quadro através, normalmente, do fomento da actividade empresarial privada. Havendo este fomento as empresas que hoje têm 80% – 90% do seu negócio com o Estado poderão traçar estratégias de redução passando a prestar bens e serviços para outras empresas e famílias. É importante esclarecer que o problema essencial está na produção de bens e serviços e não no facto da empresa do sector produtivo ser estatal ou privada. Por outras palavras o problema de Angola é tratar de produzir o que consome!
Em resumo: numa economia em transição é natural o Estado ser o maior consumidor. Contudo, cabe também a esse mesmo Estado gizar um programa com metas bem definidas onde se possa realizar uma mudança faseada para o aumento do consumo por parte do sector empresarial privado e famílias. Isso só é possível e sustentável aumentando a base produtiva da economia.

Consumo familiar
Para que as famílias tenham um aumento do seu consumo é necessário que elas tenham igualmente um aumento do seu rendimento. Infelizmente este não tem sido o caso para a maior parte da população em Angola uma vez que o poder de compra do salário diminui cada vez mais devido a inflação e desvalorização monetária. Daí a política do hard Kwanza (i.e. kwanza sobrevalorizado).
Uma política de (sobre)valorização do Kwanza contribuiu para o aumento do consumo das famílias mas pode, por norma, prejudicar a produção local de bens e serviços já que permitiria a importação dos mesmos a partir do exterior a um preço normalmente mais competitivo do que é oferecido no mercado local. Contudo, vale aqui explicar que essa importação só é possível havendo disponibilidade de divisas o que não é o caso de Angola nesta fase. Por outras palavras neste momento em Angola as necessidades de consumo não podem ser facilmente satisfeitas via importação devido as restrições cambiais (acesso aos dólares). Outra solução passa então pela redução da inflação, caracterizada pelo aumento dos preços devido a um aumento da procura e redução da oferta. Para tal existe a necessidade de se aumentar a oferta, i.e. aumentar a produção local de bens e serviços. Tal aumento implica um maior investimento no sector produtivo tirando vantagens das melhorias feitas nas infra-estruturas básicas (agua, luz, estradas) e acesso ao financiamento (crédito).

Estado devedor: O impasse…
Angola está perante um ciclo indecoroso onde o Estado não paga os bens e serviços que consome porque não recebe dos impostos que cobra o dinheiro suficiente para cobrir as suas despesas. As empresas não pagam mais impostos porque estão endividadas fruto da falta de pagamento do Estado. A solução passa por identificar aquelas empresas que actualmente não pagam impostos e cobrar, identificar as empresas que pagam menos do que deviam pagar e igualmente cobrar. No que toca as despesas, o Estado em Angola é conhecido por esbanjar recursos. Em tempos de crise devesse aumentar o rigor e qualidade das despesas bem como investir em actividades que garantam um maior retorno do capital.

O Estado tem que reduzir a sua dívida perante o empresariado local. Se houver a necessidade de reduzir e/ou anular alguns impostos (ou reduzir o valor a cobrar), conforme sugerido por alguns empresários, que tal redução seja condicionada a resultados a saber: empregos, aumento dos volumes de produção que permitam a substituição das importações e receitas através da exportação. Em nosso entender para um melhor controlo deste tipo de incentivo, o mesmo só seria atribuído após apresentação dos resultados previamente acordados, i.e. primeiro os empresários teriam que mostrar que criaram os empregos prometidos, que aumentaram o volume de produção (cabendo ao Executivo accionar os mecanismos para proporcional redução das importações) e avançaram para exportação dos excedentes (cabendo igualmente ao Executivo dar suporte a tal intenção).


Enfim, o problema de Angola como já argumentamos antes, ex.: 14 de Julho de 2016, passa, por um lado, pela execução de uma política de expansão da base produtiva. Por outro lado se taxation is the state (traduzindo: os impostos fazem o Estado) aumentando a base produtiva aumentasse os valores dos impostos a arrecadar pelo Estado. Contudo, como qualquer consumidor, o Estado tem que pagar o que deve!

sábado, 25 de março de 2017

Os Dólares, o BNA e as Novas Regras no Mercado Cambial: Alocação de recursos em tempo de crise (2).

No nosso primeiro post sobre este assunto, 1 de Julho 2016, chamamos a atenção ao facto do BNA estar a fazer a alocação das divisas por sector sem indicar de forma clara quem eram os beneficiários bem como indicamos a ausência de um follow up onde pudéssemos “apreciar o impacto desses recursos nos sectores (e empresas) priorizados quer seja em termos de aumento do volume da produção, receitas ou ainda em termos de empregos gerados ou mantidos”. Isso porque num outro post, 19 de Fevereiro de 2016, havíamos já indicado que em tempos de crise “existe a real necessidade de se identificar e apostar em sectores (produtos e produtores) capazes de gerarem um efeito multiplicativo dos poucos recursos que lhes sejam disponibilizados”, gerando empregos, volumes que permitam a substituição das importações e receitas através da exportação.

Ao tomarmos conhecimento, por via dos jornais publicados em Luanda, que o BNA prevê mudar a actual regra no mercado cambial alocando 80% das divisas a 5 ou 6 bancos, que segundo nos adianta uma das publicações tratam-se dos seguintes bancos: BAI, BIC, Banco Económico, Banco Millennium Atlântico, BNI e Banco Sol[1] controlados por capitais angolanos (os outros 20% para os demais), tendo sido apontado como critério a “robustez e solidez” dos mesmos.

Se tivermos em conta a estrutura accionista desses bancos[2] precisamos nos interrogar se essa opção vai resultar no que foi acima apresentado, isto é, se o BNA vai conseguir fazer com que esses bancos priorizem o sector produtivo, fazendo um follow up, publicando de forma transparente o processo de alocação, identificando os beneficiários para que possamos depois exigir deles resultados a saber “empregos, volumes que permitam a substituição das importações e receitas através da exportação”. Será que o BNA vai conseguir disciplinar aqueles bancos que priorizarem a importação de bens de luxo?  

É importante referir que o problema actual não está na falta de alocação de divisas mas que devido a falta de informação sobre os reais beneficiários temesse que as poucas divisas estejam a ser alocadas a sectores que não criem empregos (para a juventude), que não aumentem a produção nacional (reduzindo as importações e saída de divisas) e que não criem valências que possam permitir ao sector produtivo exportar e com isso trazer mais divisas para o país. Enfim que estejam a ser usadas para compra de viaturas de luxo, casas no exterior e viagens de recreio.

Apresentado desta forma compreendesse que o caminho para se ter mais divisas disponíveis (para além de ‘rezar’ para o aumento do preço do petróleo) é fazer chegar recursos a aqueles sectores e produtores que possam rapidamente gerar um efeito multiplicativo. Feito desta forma vamos criar um ciclo virtuoso, vamos ter mais recursos para que outros sectores se desenvolvam. Este exercício, que parece simples, requer um compromisso sério com o desenvolvimento de Angola.

Enfim, vamos agora acompanhar com bastante atenção o desenrolar deste processo!

domingo, 20 de novembro de 2016

Já era tempo! Sobre o “fim à obrigatoriedade [da dívida pública] não ultrapassar os 60% do PIB”

Finalmente deu para ver que apesar do que muito se fala, o Governo em Angola parece ter momentos de lucidez ou tem alguém que talvez esteja a ler e atento as várias contribuições que vão estando disponíveis sob várias formas.

No nosso post de 13 de Agosto de 2016, tratamos de ilustrar a razão pela qual acreditávamos que não havia razão para se ter um tecto máximo da dívida pública a 60% do PIB, que em nosso entender na altura, estava baseado numa pesquisa que havia sido questionada por uma outra[1].

Demos conta hoje que muito recentemente foi aprovada, pela Assembleia, uma lei que define apenas como ‘referência’ o anterior limite de 60% do PIB. Apesar de ser uma notícia interessante, uma vez que volta a dar uma certa flexibilidade ao Governo, vale igualmente chamar a atenção que apesar de termos verificado que “a teoria económica nos serve de muito pouco no que toca a um aconselhamento quanto ao nível ideal de endividamento público,”[2] voltamos aqui a relembrar aos nossos leitores que em caso de endividamento que os valores em causa não sejam canalizados para cobertura dos gastos correntes.

Uma dívida pública tem efeitos multiplicativos quando, por exemplo, os valores são direccionados para (1) a construção de infra-estruturas (exemplo: água e energia eléctrica) capazes de darem suporte ao sector manufactureiro e primário (agrário) pelas externalidades que esses dois sectores podem gerar, assegurando ao Estado o tão desejado fiscal space (i.e. amplitude fiscal que se traduz no aumento de contribuintes). (2) Para a construção de infra-estruturas ligadas a saúde, educação e transportes públicos capazes de subsidiarem a actividade empresarial privada[3].

Enfim, esperamos que essa flexibilidade adquirida sirva para promover sectores que contribuam para o melhoramento da qualidade de vida da geração vindoura, porque afinal serão eles a reembolsar essa dívida!



[1] Ver o post de 13 de Agosto de 2016
[2] Ver artigo de Jonathan D. Ostry, Prakash Loungani, e Davide Furceri publicado pela revista do FMI Finance & Development Junho 2016, para uma posição semelhante.
[3] Subsidiar a actividade empresarial privada’ significa que o Governo ao equipar com meios materiais e humanos os sectores da saúde e educação pública faz com que a população activa tenha acesso a esses serviços sem grandes custos o que reduz a pressão [a nível de salários e regalias sociais] no sector empresarial privado tendo estes mais capital para reinvestirem nas suas actividades adquirindo novas tecnologias. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Desarticulação na Implementação do Plano de Desenvolvimento Nacional: O Caso da Reabilitação da Industria Têxtil, até quando “errare humanun est”?

No post de 14 de Julho 2016, tratamos de ilustrar como o Executivo deveria assegurar as interligações sectoriais dos investimentos públicos em Angola, por formas a garantir o que temos chamado neste blog de efeito multiplicativo. Na reflexão de hoje vamos tratar de apresentar um exemplo concreto, olhando para o caso do relançamento da indústria têxtil angolana.

Num artigo com o título “Indústria: Têxtil reabilitado”[1] de 30 de Agosto de 2016 publicado numa das revistas editadas em Luanda encontramos alguns dados interessantes sobre o processo de reabilitação da indústria têxtil nacional. No artigo podemos ver, por exemplo, que esse processo de reabilitação ficou orçado em 1.2 mil milhões de dólares e que foi financiado pelo Japão. A agora Nova Textang em Luanda custou 235 milhões de dólares, a Satec no Dondo, Kwanza Norte 480 milhões de dólares e por último a África Têxtil em Benguela 410 milhões de dólares norte-americanos. Notamos igualmente que pensou-se em quase tudo, uma vez que fica-se a saber que cada fábrica irá servir um segmento distinto do mercado evitando assim a concorrência entre si (o que talvez fosse benéfico), que estas 3 fábricas vão satisfazer cerca de 70% da procura interna e espera-se que 30% do total da sua capacidade produtiva seja direccionado para a exportação (presumimos que 30% da procura interna será satisfeita ou por outras fábricas ou via importação). Por último o artigo nos indica que existem já contactos feitos a nível dos mercados internacionais de referência.

Contudo, demos conta que o que foi ‘esquecido’ foi a matéria-prima para essas fábricas, o algodão, que terá que ser importado para o primeiro ano de actividade, como nos indica o artigo, mas acreditamos que se possa continuar a importar até que internamente se consiga satisfazer a demanda anual, apresentada igualmente no artigo, de 20 mil toneladas ano.

A luz deste facto vale perguntar: Por que razão não se articulou o processo de reabilitação dessas fábricas com o relançamento da produção local de algodão? Isto dito de outra forma, por que razão a agricultura não serviu de base para que a indústria fosse verdadeiramente o factor decisivo? Sabe-se, através do artigo, que o processo de reabilitação da África Têxtil em Benguela (a única que temos dados no artigo) começou em 2012 e terminou em 2014. Podemos especular que se tivesse havido uma melhor articulação sectorial, talvez, no momento do arranque dessas unidades fabris Angola já teria alguma produção de algodão e quiçá pouparia cambiais evitando a importação de algodão.

Neste blog já argumentamos a necessidade de Angola ter uma política industrial selectiva (ver por exemplo os post de 1 de Março 2015 e de 19 de Fevereiro 2016). Mas hoje, a luz do que já foi acima apresentado, acreditamos que Angola, seguindo o exemplo do que fizeram países como a Singapura, Rwanda, Coreia do Sul, deveria ter uma estrutura que, como nos sugere o historiador económico Alexander Gerschenkron, faça a mesma função, que a estrutura denominada Economic Development Board, tem feito/fez nesses países que foi de centralizar e coordenar todas as actividades de desenvolvimento evitando assim um erro como o que agora se assiste na reabilitada indústria têxtil nacional. Sabemos que existe um projecto de produção de algodão na região do Kwanza-Sul e que muito recentemente houve uma mesa redonda que concluiu que Malanje reúne condições para o cultivo de algodão. Isso parece remeter-nos a filosófica questão do ‘ovo e a galinha, quem veio primeiro?’ Mas podemos dizer que para este caso concreto as duas acções i.e. o processo de reabilitação e o relançamento da cultura do algodão deveriam ocorrer em simultâneo. 

Em jeito de conclusão pode-se dizer que para o caso da reabilitação da indústria têxtil em Angola houve uma certa desarticulação sectorial que poderia ter sido evitada, com ganhos rápidos para o país, caso houvesse uma entidade que chama-se a si a função de coordenar toda a actividade de desenvolvimento assegurando a tão desejada interligação sectorial (a indústria a receber matéria-prima da agricultura e outros a fornecerem serviços como fertilizantes, equipamentos ao sector agrícola). Enfim, ter-se-ia criado facilmente um circulo virtuoso que com esse encontro recente de Malanje, talvez venha a se materializar. Colocado desta forma vale perguntar aos expertsaté quando errare humanun est”?



[1] Disponível online: http://exame.co.ao/industria-textil-reabilitado/

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

“Uma desgraça nunca vem só!”: Angola e o (possível) aumento da taxa de juro da Reserva Federal Americana (2)

No nosso post de 2 de Outubro de 2015 indicamos como, naquela altura, o possível aumento da taxa de juro da Reserva Federal Americana poderia contribuir negativamente para a redução dos investimentos em países cuja economia estivesse em transição como o caso de Angola. Hoje tomamos contacto com um Policy Brief  do Overseas Development Institute baseado em Londres assinalando que na sua reunião de Outono deste ano a Reserva Federal Americana poderá mesmo aumentar a taxa de juro, o que a acontecer deixará ainda mais fragilizada a economia de países que, como Angola, tenham uma dívida substancial em dólares americanos.

Os dirigentes em Angola devem sempre recordar-se que países em desenvolvimento captam mais investimentos quando a taxa de juro da Reserva Federal nos EUA não é atractiva, quando ela sobe esses mesmos países acabam por ter duas ‘desgraças’ i.e. (1) dificuldade de pagarem as suas dívidas em USD e (2) vêem reduzida a sua capacidade de atraírem investimento directo estrangeiro.

A ser verdade torna-se muito mais imperativo que o Executivo em Angola seja mais rigoroso e adopte uma componente de condicionalidade[1] no processo de identificação, escolha e financiamento de projectos privados com fundos provenientes de linhas de crédito inicialmente contractadas para projectos públicos conforme a sua estratégia para saída da crise[2].




[1] Definir e exigir o cumprimento de metas de produção (para exportação e consumo interno), empregos e receitas (para impostos).
[2] Governo de Angola ‘Linhas mestras para definição de uma estratégia para a saída da crise derivada da queda do preço do petróleo no mercado internacional’ (Jan. 2016, p. 15)

sábado, 13 de agosto de 2016

Sobre a necessidade de um tecto máximo da dívida pública em Angola: 60% do PIB faz a diferença?

Muito temos lido e ouvido sobre o aumento da dívida pública angolana e acima de tudo sobre a rigidez da lei angolana sobre o assunto. Neste post não vamos tratar de dizer se a lei está certa ou errada, se devemos ou não ‘violar’ a lei. Pelo contrário, vamos tratar de ver até que ponto essa definição do tecto máximo da dívida pública tem razão de ser. Não pretendemos esgotar o assunto com este post mas sim incentivar os nossos leitores a reflexão.

Em Angola a Lei nº 1/14 que define o regime jurídico de emissão e gestão da dívida pública directa e indirecta indica no seu artigo 3 alínea 3 que “[a] divida pública, interna e externa, de curto médio e longo prazo, não deve exceder 60% do Produto Interno Bruto”. Ok, mas por quê 60% e não 45% ou mesmo 80%?

Ensina-nos a sabedoria popular que ‘quem deve paga’! Desta forma manter a nossa dívida privada ou pública a um certo nível parece o mais sensato a fazer. Contudo e em nome da já aludida sensatez precisamos perceber a razão do tecto estabelecido. Para o caso do 60% do PIB, um caso mais sonante sobre este tecto de dívida pública é o chamado critério de Maastricht[1] que define este, como um dos cinco aspectos que os países devem cumprir para que possam aderir a união monetária europeia (a Zona Euro).

Olhando para a literatura, demos conta de um artigo (um paper) científico de 2010 que muito influenciou o debate sobre o tecto máximo da dívida pública, da autoria de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff com o título Growth in Time of Debt [tradução directa: Crescimento em tempo de dívida][2]. Reinhart & Rogoff sugerem neste paper que quando a dívida atinge 60% do PIB “growth declines by about two percent; for higher levels, growth rates are roughly cut in half” [tradução directa: verifica-se um declínio do crescimento de 2%; e para níveis acima [dos 60%], as taxas de crescimento são cortadas pela metade]. Apresentado desta forma fica de certa forma justificada a escolha do legislador nacional em definir 60% do PIB como o tecto máximo da dívida pública em Angola.  

Para além disso fica igualmente claro que por cá, quando a Lei nº 1/14 foi elaborada, os nossos experts devem ter lido este paper de 2010 e tido em consideração muitas das implicações derivadas dele, como é o caso das medidas de austeridade aplicadas em momentos de crise (podemos citar o caso europeu mais mediático da Grécia e Portugal mas também no contexto africano e não só tais medidas vêem sendo aplicadas).

Contudo no mundo académico, esse tipo de conclusão está sujeito a um escrutínio rigoroso. Em 2013, no artigo “Does High Public Debt Consistently Stifle Economic Growth? A Critique of Reinhart and Rogoff” em que se propuseram reanalisar os resultados apresentados por Reinhart & Rogoff (2010), Thomas Herndon, Michael Ash e Robert Pollin todos da Universidade de Massachusetts nos EUA, assinalam que após correcção das omissões encontradas no estudo de Reinhart & Rogoff, os países na amostra que tinham uma dívida pública de 90% do PIB apresentavam um crescimento de 2.2%, desmistificando a ideia de que acima dos 60% do PIB o crescimento caí dramaticamente conforme sugerido por Reinhart & Rogoff e imposto no contexto Europeu pelo critério de Maastricht.   

Mais recentemente num artigo publicado pela revista do FMI Finance & Development Junho 2016, Jonathan D. Ostry, Prakash Loungani, e Davide Furceri assinalam que a teoria económica nos serve de muito pouco no que toca a um aconselhamento quanto ao nível ideal de endividamento público. Do nosso lado, temos advogado neste blog para que em caso de endividamento que os valores em causa sejam canalizados para a construção de infra-estruturas (exemplo: água e energia eléctrica) capazes de darem suporte ao sector manufactureiro e primário (agrário) pelas externalidades que esses dois sectores podem gerar, assegurando ao Estado o tão desejado fiscal space (i.e. amplitude fiscal que se traduz no aumento de contribuintes). Para a construção de infra-estruturas ligadas a saúde, educação e transportes públicos capazes de subsidiarem a actividade empresarial privada. Enfim, que a dívida socializada nos traga prosperidade!



[1] http://glossary.reuters.com/?title=Maastricht_Criteria
[2] http://www.nber.org/papers/w15639

quinta-feira, 14 de julho de 2016

O Executivo Angolano e as suas Estratégias de Desenvolvimento (1): Até quando “errare humanun est”?


Um problema que podemos identificar nos vários documentos disponíveis onde o Executivo apresenta a sua estratégia de desenvolvimento de curto a médio prazo (o Plano de Desenvolvimento Nacional 2013-2017) e mais recentemente as “Linhas Mestras para a Definição de uma Estratégia para a Saída da Crise Derivada da Queda do Preço do Petróleo no Mercado Internacional” bem como a estratégia de longo prazo “Angola 2025” é a incapacidade de se compreender que num processo de desenvolvimento não é possível investir e desenvolver simultaneamente vários clusters.
Olhando para a experiência de desenvolvimento de outros países, como a Singapura, Coreia do Sul, China, podemos perceber que a estratégia não foi desenvolver simultaneamente vários sectores, mas focalizar-se naqueles que poderiam rapidamente gerar empregos, garantir divisas através da exportação de bens e serviços, assegurar receitas e possibilitar mais interligações (linkages) com outros sectores da economia. Um caso interessante e que podemos mencionar é o facto da Coreia do Sul ter apostado na construção naval, por ter identificado enorme potencialidades a longo prazo, o que veio a materializar-se. Hoje este país é uma referência se não mesmo um dos maiores construtores de plataformas petrolíferas (os Kizombas no Bloco 15 do offshore angolano operado pela ESSO – Angola, foram todos construídos lá).
Para o caso angolano é evidente a falta de uma certa capacidade dos nossos experts priorizarem os clusters a desenvolver e como resultado verificamos que durante o período de bonança, quando os recursos provenientes do petróleo (em alta) estavam disponíveis, recursos foram alocados simultaneamente a vários clusters. Isso fez com que por exemplo, os pólos de desenvolvimento industrial, o projecto cartão-de-visita do sector industrial, não tivessem o desempenho esperado no que toca a criação de emprego e contribuição para o PIB, com base no Programa de Desenvolvimento do Sector elaborado para o período de 2009 – 2013. Afinal os investimentos no sector da energia e água deveriam preceder tal iniciativa.
Por outro lado, ao apostar correctamente no sector da construção com focos na (re)construção de infra-estrutura básica, o Executivo devido a factores políticos perdeu uma boa oportunidade de criar interligações com outros sectores, exemplo da produção de materiais e equipamentos para o sector em causa. Mas uma vez que Angola continua a precisar de melhorar as suas infra-estruturas, o Executivo tem agora uma sublima oportunidade de corrigir e desta fazer com que as futuras infra-estruturas publicas deixem um efeito duradoiro, impulsionando outros sectores da económica via linkages ou interligações sectoriais.
Enfim, urge compreendermos que num processo de alocação de recursos “dividir o mal pelas aldeias” acaba por ser contraproducente, pelo que, a solução passa pela discriminação sectorial[1] disponibilizando recursos a empreendedores capazes de superarem as metas de produção, receitas e empregos definidas antes de acederem aos recursos. Essa necessidade acaba por ser inalienável quando o Executivo apresenta na sua estratégia de saída da crise a vontade de utilizar fundos adquiridos via linha de crédito inicialmente para projectos públicos para promover o que indica como “projectos privados de elevada rendibilidade e promotores da diversificação da produção e das exportações”[2]. Isto só será possível se aos empreendedores seleccionados e a sociedade forem previamente comunicadas as metas de produção, receitas e empregos a gerar por cada um dos projectos beneficiados, o suporte disponível para que os projectos tenham sucesso bem como as cláusulas de penalização caso haja fracasso uma vez que estarão a utilizar fundos com garantia do Estado.


[1] Vale realçar que isso não significa que um dado sector será evitado completamente mas sim que deverá existir a necessidade de se identificar que sector/cluster desenvolver primeiro, segundo, etc, que sector o estado deverá proteger, que sector o estado devera incentivar a concorrência incluindo a de estrangeiros (preferencialmente em sectores mais maduros da economia). A preferência deve aqueles que possam assegurar as maiores interligações sectoriais.
[2] Governo de Angola ‘Linhas mestras para definição de uma estratégia para a saída da crise derivada da queda do preço do petróleo no mercado internacional’ (Jan. 2016, p. 15)

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Os dólares, o BNA e a sua Nota de Imprensa semanal: Alocação de recursos em tempo de crise.

De um tempo a esta parte o BNA tem estado a divulgar nas suas Nota de Imprensa sobre Mercados Monetário e Cambial a forma como foram alocadas as divisas disponibilizadas no período em análise. Esta nova forma de proceder visa, no entender da instituição, dar uma maior transparência ao processo de acesso a divisas num período em que elas se tornaram escassas.

Por exemplo, na Nota de Imprensa referente ao período de 20 a 24 de Junho de 2016 indica-se que o sector agrícola recebeu 8,3 milhões de Euros e o sector industrial 64,1 milhões de Euros. No entanto ela acaba por pecar por defeito uma vez que não é possivel indentificar-se os reais beneficiários nem muito menos existe um follow up onde possamos apreciar o impacto desses recursos nos sectores priorizados quer seja em termos de volume, receitas ou ainda em termos de empregos gerados ou mantidos.

Muito recentemente, no nosso post de 19 de Fevereiro de 2016, indicamos que em tempos de crise “existe a real necessidade de se identificar e apostar em sectores (produtos e produtores) capazes de gerarem um efeito multiplicativo dos poucos recursos que lhes sejam disponibilizados”, gerando empregos, volumes que permitam a substituição das importações e receitas através da exportação. Cabe a uma instituição como o BNA, pensamos nós, fazer um pouco mais do que simplesmente regular o mercado. Espera-se que a sua intervenção ajude a capitalizar preferencialmente o sector produtivo (ver o post de 13 de Dezembro 2015) e dentro dele priorizar os produtos e produtores capazes de assegurarem o tão desejado efeito multiplicativo. Uma pauta aduaneira restritiva poderia assegurar a esses produtores um período de aprendizagem, rent seeking, e possibilidade de investimento em novas tecnologias e melhoramento do sistema produtivo. Contudo, aos beneficiados ser-lhes-ia dado metas claras de produção, emprego e receitas bem como uma componente de condicionalidade com cláusulas igualmente claras de penalização caso tais metas não fossem atingidas.

Sendo os recursos escassos, em tempo de crise é necessário discriminar e priorizar inicialmente aqueles que nos garantam os resultados desejados. Afinal nenhum país detém uma vantagem competitiva em todos os sectores. Há sectores em que o estado poderá participar, outros em que deverá priorizar a iniciativa privada nacional e estrangeira ainda outros em que parcerias público-privadas poderão ser a melhor opção.

Esperemos agora que os poucos recursos postos a disposição de alguns beneficiários ajudem a acelerar o processo de diversifição da economia e que venham a contribuir de uma maneira tangível para que surgem no país (via exportação de bens e serviços made in  Angola) outras fontes de divisas .