segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Porquê é que nos EUA não existe uma fábrica de automóvel em cada um dos estados?

Essa foi a pergunta que um antigo professor fez-me quando mostrei-lhe uma brochura da Rede Nacional de Pólos Industriais, como uma evidência de que em Angola o estado parece já estar apostado (agora com a crise, mais do que nunca) na industrialização do país e consequentemente na diversificação da economia capaz de reduzir a sua dependência nas receitas provenientes da venda do petróleo.

Pois bem neste post vamos tratar de reflectir sobre essa mesma pergunta tendo como pano de fundo o projecto governamental de construção de cerca de 22 pólos industriais, por vermos que continuamos a cometer o erro de não ver e aprender com o que de melhor fizeram e fazem os outros países.

Ao concentrar a indústria automóvel americana em Detroit foi possível a América (e aos americanos) criar sinergias entre elas, partilhar experiências e reduzir os custos de produção neste sector. O mesmo aconteceu com o chamado Silicon Valley no estado da Califórnia onde está concentrado o sector das tecnologias de informações ou Wall Street em Nova Iorque onde está concentrado o sector financeiro.   

Para o caso de Angola se a rede de pólos industriais visa proporcionar condições em termos de infra-estruturas básicas (ex: água e luz) para que as industrias (apesar de não sabermos quais[1]) possam produzir a um custo competitivo, permitindo-lhes pensar na expansão para mercados exteriores, vale perguntar se a localização geográfica de cada um desses investimentos vai de facto permitir atingir esse objectivo (diversificar a produção e fontes de receitas).

Os factos indicam que nos dois primeiros pólos do país, Viana e Catumbela, contrariamente ao que se esperava temos pouca actividade industrial. Para o caso de Viana apenas existem 150 indústrias de manufactura num universo de 500 empresas, significa dizer que 70% do espaço criado (e infra-estruturado) não está a ser usado para criar a dinâmica necessária para a transformação estrutural da nossa economia (ver por exemplo o post de 1 de Março 2015). Ao invés poderá estar a ser usado para o armazenamento (e respectiva comercialização) de produto importado.

Então voltamos ao que já havíamos dito no post de 2 de Janeiro de 2016, quando identificamos a necessidade de haver um certo pragmatismo como o desafio numero 1 para Angola em 2016. Aliás, pragmatismo foi o que levou os chineses a atingirem o nível de desenvolvimento que hoje lhes é reconhecido ao mesmo tempo que parece estar a permitir os vietnamitas fazerem o mesmo.

O que se via na China e vê-se hoje no Vietname mostra que a criação de pólos industriais estava e está associada a uma estratégia de servir o mercado interno e externo. Se para o caso de Angola quisermos atingir os mercados externos (tanto a nível regional como para além do mercado da SADC), não vai ser suficiente identificar os produtos com mais possibilidades de atingirem esse propósito. Vai ser preciso ter em atenção no momento da criação do pólo industrial os pontos de saída (como portos e zonas fronteiriças terrestres, acesso ao caminho de ferro) para não tornar oneroso o processo de exportação.

Enfim, a criatividade que se espera nesta altura de crise não tem nada a ver com a construção primeiro de pólos industriais para depois esperar que alguma indústria se desloque, mas sim com a criação de projectos bem estruturados que considerem a partida (1) quais as industriais a instalar (tendo em atenção o seu potencial em termos de receitas, empregos e ligação com outros sectores da economia) e o (2) que fazer com a produção (focos no mercado interno, externo ou ambos?) devido as implicações no que toca aos já mencionados pontos de saída para exportação.     

sábado, 16 de janeiro de 2016

Fraca demanda do petróleo ainda em 2016

Segundo o relatório especial do The Economist Intelligence Unit Industries 2016 o preço do barril de petróleo Brent (usado como referencia para o petróleo exportado por Angola) poderá neste ano situar-se a volta dos 53 US dólares. Isso poderá de certa forma ajudar Angola que elaborou o orçamento para este ano cotando o barril em 45 US dólares.

Contudo, fica subjacente neste relatório que a época áurea dos combustíveis fósseis parece ter terminado especialmente após o acordo alcançado em Paris. Esses desenvolvimentos terão um impacto directo em Angola que como se sabe ainda depende muito do petróleo não só como fonte de receita de divisas como também como suporte ao seu sector industrial.

Hoje não se pode negar que uma alteração no preço dos combustíveis acaba por ter uma repercussão directa na vida (e qualidade de vida) dos cidadãos afinal o preço do pão subiu dos 15 para 20 AKz, o candongueiro passou dos 100 para os 150 Akz. Isso porque ainda não conseguimos desenvolver outras fontes de energia para dar suporte aos esforços de industrialização (apesar da promessa de se colocar em actividade muitos dos projectos hidroeléctricos já em 2017).  

A situação que Angola vive hoje ilustra claramente a ideia de que um país pode ser até ser produtor de petróleo mas ainda assim ser energeticamente inseguro. Isto acontece, no caso angolano, pelo facto de não se ter desenvolvido uma indústria petrolífera que prestasse uma atenção especial a refinação e ao desenvolvimento de outros produtos derivados do petróleo com potencial a nível das exportações.

Neste blog já deixamos algumas ‘pistas’ que poderiam ajudar a minimizar os efeitos negativos desses eventos (ver por exemplo 14 de Fevereiro de 2015, 1 de Marco de 2015), pelo que, resta saber se quem de direito saberá tomar as medidas que se mostram necessárias.  

sábado, 2 de janeiro de 2016

Angola e os Desafios para 2016: Diversificação Económica Quo Vadis?

“Falamos durante muito tempo na diversificação da economia, mas fizemos muito pouco, mesmo assim vale mais começar tarde do que nunca começar.” Pres. Dos Santos (Mensagem por ocasião do Ano Novo)

Ao lermos a mensagem de sua Excelência o Presidente da Republica por ocasião do Ano Novo, decidimos dedicar anualmente[1] um post sobre quais poderão ser os desafios que Angola e os angolanos deverão superar nos mais diversos sectores do país. Esperamos um dia poder compilar essas reflexões num formato mais atractivo e acabado. Por uma necessidade de delimitação, neste post vamos partir do extracto acima apresentado para reflectirmos sobre algumas das acções levadas acabo pelo executivo no amplo esforço de diversificação económica. Sendo assim, vamos aqui analisar o tema tendo como ‘pano de fundo’ algumas das propostas que vimos emergir nos últimos anos com vista a dinamizar esse tão desejado processo.  

Criação de Pólos Industriais
No país existem em funcionamento pelo menos dois (2) pólos industriais, o de Viana e o da Catumbela[2]. A construção de pólos tem sido apontada como uma estratégia a seguir por países que tendo dificuldade de proporcionar infra-estruturas adequadas (incluindo serviços básicos como o fornecimento de electricidade e água), possam ainda assim desenvolver projectos industriais com as mínimas condições. Como exemplo de sucesso podemos citar países como a China, Vietname, Tailândia, que seguindo esta via conseguiram fazer crescer o seu sector da indústria transformadora.

No caso de Angola, nos pólos existentes temos em funcionamento poucas unidades industriais. Não sabemos se isso se deve a falta de informação mas o facto é que também não temos conhecimento que tenha sido feito um estudo para se identificar/priorizar o acesso aos polos. Contudo, apesar de se ter criado uma entidade para gerir os pólos industriais, a Rede Nacional de Pólos de Desenvolvimento Industrial, acreditamos ser necessário aplicar com clareza e rigor os critérios definidos para se ter acesso a esses pólos. Só assim se poderá evitar o apelo feito em 2014 pela então administração da Zona Económica Especial Luanda - Bengo (ver post de 10 de Julho 2014) onde visava atrair parceiros (investidores estrangeiros e nacionais) aos detentores de terreno naquele espaço, quando a partida sabíamos que apenas teria um espaço quem tivesse um projecto industrial.   

No caso do Pólo Industrial de Viana as indústrias que lá estão reclamam da qualidade dos acessos e dos serviços (fornecimento de luz eléctrica e água). Muitos dos espaços foram ocupados por armazéns ao invés de projectos industriais[3]. Vale acrescentar que através dos pólos industriais o país poderia criar clusters de produção onde indústrias de um mesmo sector poderiam criar sinergias para melhoria da qualidade dos seus produtos, optimização dos serviços de que necessitam e obter o suporte necessário visando a sua expansão para mercados externos.

Apoio as Micro, Pequenas e Medias Empresas (MPMEs)
Segundo uma brochura institucional de 16 de Novembro de 2012 o programa Angola Investe tinha como principal objectivo “criar e fortalecer as Micro, Pequenas e Medias Empresas (MPMEs) nacionais, tornando-as capazes de gerar emprego em grande escala e, assim, contribuir decisivamente para o desenvolvimento do país” viradas aos seguintes sectores: agricultura, pecuária e pescas, materiais de construção, industria transformadora.

No nosso post de 21 de Dezembro de 2015 tratamos de elucidar o contraste que ainda existe entre o desejo da Administração Geral Tributária (AGT) de reduzir a informalidade que se verifica no nosso mercado (onde 60% desta mesma informalidade é atribuída as MPMEs) e o facto das MPMEs terem pouco acesso a renda através da contratação pública. Num outro post de 13 de Dezembro 2015 citamos um estudo do nosso banco central, o Banco Nacional de Angola, que abordando a situação creditícia em Angola[4] chamava atenção pelo facto dos empréstimos ao sector dos serviços ser o “maior consumidor de crédito”[5].
A combinação da análise apresentada nesses dois posts poderá dar-nos uma visão (se bem que um tanto simplificada) do que se estará a passar com o principal objectivo do Angola Investe. O facto é que, segundo este estudo do BNA, contrariamente ao propósito do Angola Investe o crédito não está a ser direccionado para os sectores que a partida sabíamos que poderiam “contribuir decisivamente para o desenvolvimento do país”.

Politica Externa
Como apresentamos no nosso post de 26 de Julho 2015 Angola precisa articular a sua necessidade de identificar e desenvolver mercados externos na sua política externa, condicionando uma parte da verba destinada a ajuda externa no âmbito dos esforços na busca da “paz, segurança e estabilidade” conforme o PR nos apresentou na sua mensagem, a aquisição de bens e serviços made in Angola. Desta forma iriamos fazer com que os produtos (e serviços) que estão a contribuir para uma melhor diversificação da nossa economia proporcionassem também divisas para o país contribuindo assim para redução da dependência das receitas do petróleo (e diamantes).

Diversificação Económica Quo Vadis
A nossa realidade actual mostra que essas três (3) áreas acima analisadas não estão ainda a dar os resultados esperados devido ao que nós chamamos neste blog de ausência de uma política industrial selectiva.

Ao adoptarmos uma política industrial selectiva iriamos ser capazes de definir que tipo de indústria priorizar em cada um dos pólos industriais. Isso não significa que qualquer outro tipo de indústria não teria acesso a essas infra-estruturas, pelo contrário, significa dizer que teriam um acesso secundário. Devido a esta situação (maior procura do que oferta, devido a escassez de recursos) o acesso e permanência, nesses pólos, deveriam ser condicionados a apresentação de resultado mensuráveis (de produção e receita, geração de empregos e volume de exportação).

Uma vez definida a localização geográfica das indústrias[6], passaríamos ao mecanismo de financiamento. O programa Angola Investe deveria manter o seu formato inicial que conforme apresentamos trataria de “criar e fortalecer as MPMEs (Micro, Pequenas e Medias empresas) nacionais, tornando-as capazes de gerar emprego em grande escala e, assim, contribuir decisivamente para o desenvolvimento do país” viradas aos seguintes sectores: agricultura, pecuária e pescas, materiais de construção, industria transformadora. A política externa deveria ajudar a garantir que os produtos made in Angola, resultantes destas iniciativas, conquistassem espaço no mercado externo.

Enfim, no que toca a diversificação económica contrariamente ao PR e para sermos justos a quem no executivo tem estado a fazer esse já mencionado esforço de diversificação, consideramos que muito já foi feito e tem sido feito. Contudo, os desafios para Angola em 2016 (e adiante) passariam, a luz do que vimos nesta reflexão, por (1) pragmatismo para fazer apenas o que agrega valor. No caso dos pólos industriais dever-se-ia primeiro tratar de por a funcionar bem os que hoje estão em funcionamento, Viana e Catumbela, tirar-se ilações desta experiência antes de expandir-se para outras áreas. (2) Condicionalismo no que ao acesso a recursos diz respeito. Dever-se-á dar acesso aos pólos industriais e ao financiamento a empreendedores capazes de se comprometerem a atingirem metas de produção, receitas, empregos, volume de exportação bem definidas sob pena de verem retirados tais benefícios. (3) Rigor no que se propõe fazer atendendo ao facto de que os recursos ao dispor do processo de diversificação são limitados e da necessidade que o país tem de diversificar as suas fontes de divisas. Tudo o que acabamos de apresentar poderia ser resumido dentro do que temos estado a chamar neste blog de política industrial selectiva.




[1] Vamos tentar fazer um esforço no sentido de produzirmos essa reflexão no inicio de cada ano para que os nossos leitores possam ao longo do período em análise tecerem outros comentários e/ou efectuarem outras reflexões.
[2] Segundo sabemos o ministério de tutela (Min. Da Industria) tenciona criar cerca de 22 pólos em todo o país.
[3] Vale aqui dizer que isso não significa que os armazéns não sejam necessário mas que eles deveriam dar suporte a actividade industrial e não servir de posto de venda para produtos importados.
[4] BNA (2013) “Estudo Sobre a Potenciação de Crédito Na Economia Angola”.
[5] Ênfase é nosso.
[6] A luz da necessidade de se criar clusters de produção.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Economia informal e a tributação das Micro, Pequenas e Médias Empresas

Segundo dados da Administração Geral Tributária (AGT) “o mercado angolano tem um nível de informalidade estimado na ordem dos 60% sendo este constituído por Nano, Micro e Pequenas Empresas”[1]. Esta constatação representa ao mesmo tempo um desafio e oportunidade no que ao alargamento da base tributária diz respeito.

Contudo, ao lermos um estudo do Gabinete da Contratação Pública do Ministério das Finanças (MINFIN)[2] de Abril 2015 obtivemos alguns dados interessantes a saber: das 9547 MPME certificadas pelo Instituto Nacional de Apoio às Micro, Pequenas e Médias Empresas (INAPEM) 46.6% estão localizadas em Luanda chegando a existir províncias com apenas 61 empresas certificadas (província do Zaire). Uma outra constatação interessante é o facto de 45.7% das MPME registadas dedicarem-se ao comércio a retalho e apenas 8.6% a indústria manufactureira. Este facto deveria preocupar os nossos fazedores de políticas uma vez que a teoria económica nos mostra que o sector do comércio a retalho tem menos possibilidade de contribuir directamente para a diversificação das exportações (e consequentemente a arrecadação de divisas). Sendo o comércio a retalho o foco da grande maioria das MPME em Angola a possibilidade delas directamente jogarem um papel preponderante na criação de empregos sustentáveis, como acontece em outras partes do mundo, parece-nos reduzida. 

No que tange ao acesso a serviço através da contratação pública, vê-se neste boletim que as MPME tiveram acesso (no período em analise) a apenas 6,3% de todas as cabimentações realizadas (correspondendo 1.247 de um total de 19.932). O interessante é constatar que as MPME cadastradas pelo MINFIN tiveram acesso apenas a 1,3% das cabimentações uma vez que os restantes 4,9% recaíram as MPME não cadastradas, o que não deixa de ser preocupante. Vale aqui realçar que o facto das MPME não cadastradas levarem vantagens no que toca ao acesso a cabimentações a nível da contratação pública, não significa que elas não estejam a contribuir com o pagamento de impostos. Contudo num país onde o estado, através da contratação pública, permite as MPME acesso a renda esta realidade levanta sérios desafios ao propósito da AGT de expandir a base tributaria uma vez que não nos parece haver um incentivo ao cadastramento das MPME junto do MINFIN, logo, poderá estar havendo um controlo deficiente.

Se quisermos reduzir os actuais 60% de nível de informalidade no mercado nacional, algumas medidas de política podemos depreender dessa nossa reflexão: (1) garantir que no processo de contratação pública o cadastramento sirva de incentivo as MPME, (2) criar incentivos para que o número de MPME no sector da indústria transformadora aumenta (dando apoio a projectos em sectores como a agro-indústria, a fabricação de vestuário e calçado) ou que as existentes (viradas ao comércio a retalho) evidenciem esforços para comercializarem cada vez mais produtos made in Angola.

Em suma, para que as MPME em Angola, como em outras partes, sejam o motor da economia, gerando empregos sustentáveis e contribuindo com os seus impostos, elas precisam actuar em sectores capazes de gerarem uma economia de escala (ex.: indústria transformadora) bem como ter acesso a renda (incluindo via contratação pública), duas das coisas que actualmente não se verificam, logo, justifica-se o actual grau de informalidade.



[1] Fonte: Website do MINFIN http://www.minfin.gv.ao/press/news_1447.htm acedido aos 7 de Dez 2015
[2] MINFIN Gabinete da Contratação Publica (Abril 2015) “Boletim Estatístico da Contratação Pública Angolana 2o Semestre de 2014

domingo, 13 de dezembro de 2015

Por uma Política Industrial Selectiva (1): O caso do acesso ao crédito

Ao ler um estudo feito pelo Banco Nacional de Angola (BNA) em 2013 sobre a situação creditícia em Angola[1] chamou-me a atenção a seguinte constatação de que “ [o] crédito apresenta uma elevada concentração em Luanda e no sector privado, sendo os empréstimos ao sector dos serviços o maior consumidor de crédito”[2], pelo que, restaria saber se este sector está a gerar empregos sustentáveis, receita (através dos impostos) e potencial para exportação (gerando divisas).

Neste blog chamamos a atenção em várias ocasiões (ver por exemplo post de 1 de Março 2015, 10 de Julho 2014) para a necessidade de se apostar no sector produtivo nacional. O facto de o nosso banco central (no caso o BNA) ter identificado o sector de serviços como o maior beneficiário de crédito em Angola serve como a mais forte evidência da necessidade de termos de uma política industrial selectiva, i.e. intervir para direccionar recursos a um determinado sector em detrimento de outro (e dentro deste sector apoiar determinados empreendedores em detrimento de outros). Vale recordar que a dificuldade no acesso ao financiamento representa um dos maiores entraves identificado por empreendedores em Angola no que toca ao ambiente de negócios[3].

Esta constatação do BNA mostra-nos que deixar que o mercado regule por si só o processo de alocação de recursos (no caso crédito) num país em transição, como Angola, parece ter impossibilitado que o sector productivo, aquele capaz de gerar empregos sustentáveis em especial para a juventude, tivesse os recursos financeiros de que necessita para se reerguer e transformar a economia.

Muitos poderão argumentar que esse resultado se deve a denominada Dutch disease (doença holandesa, ver post de 1 de Janeiro 2015) onde as receitas minerais, no caso de Angola receitas essencialmente petrolíferas, fizeram com que a moeda se fortalecesse tornando mais barata as importações.

Contudo, se partirmos da perspectiva segundo a qual, a presença de uma política industrial selectiva poderia permitir ao estado intervir no processo de alocação de crédito, priorizando o sector productivo nacional ao invés do sector de serviços. Outras medidas poderiam igualmente ser tomadas por formas a tornar viável os projectos de investimento que fossem apresentados, isto é, adopção de uma política industrial selectiva poderia mostrar a quem de direito que tal intervenção (i.e. alocação de crédito) não poderia ser viável sem o complemento de outras medidas como exemplo a necessidade de desvalorizar a moeda para tornar mais oneroso o processo de importação do produto acabado.

Ainda dentro de uma política industrial selectiva e no âmbito do que temos estado a reflectir neste blog[4] teria acesso ao crédito, dentro do sector productivo, apenas aquelas indústrias que se mostrassem viável de a médio prazo tornarem-se competitivas a nível regional e global, com forte potencial de crescimento no que toca a criação de empregos (necessários para as economias em transição), receitas e volume para exportação. Dentro dessas indústrias com este potencial de crescimento, teriam acesso ao crédito (com condições vantajosasapenas os empreendedores que assumissem o compromisso de atingirem metas predefinidas (metas de emprego, receitas fiscais e volume de exportação). Teria que haver uma componente de condicionalidade com cláusulas claras de penalização caso tais metas não fossem atingidas.

Em resumo, neste post tentamos ilustrar como países em transição, como o caso de Angola, poderiam alocar melhor o crédito disponível para a economia através da adopção de uma política industrial selectiva que permitisse revitalizar os sectores com maior possibilidade de a médio prazo proporcionarem economia de escala, empregos sustentáveis, receitas e volume para exportação. De resto, o estudo do BNA por si só nos mostra que o mercado tem estado a alocar recursos, talvez, para o sector menos desejado para uma economia em transição.  

 




[1] BNA (2013) “Estudo Sobre a Potenciação de Crédito Na Economia Angola”
[2] Ênfase é nosso
[3] Ver World Economic Forum (2014) The Global Competitiveness Report 2014–2015 (tradução: Relatório da Competitividade Global de 2014-15), p. 108.
[4] Ver post de 8 de Novembro 2015 onde explicamos que não é viável dar suporte equitativo a todas as industrias, sectores e regiões ao mesmo tempo

sábado, 12 de dezembro de 2015

Alguma coisa fazemos mal!

Neste espaço já tratamos de abordar a centralidade da indústria, no geral, e em particular da indústria manufactureira bem como apresentamos medidas que poderiam ser tomadas para dar suporte a indústria emergente (ver por exemplo os posts de 26 de Julho 2015, 1 de Março 2015).

Neste momento decorre a Expo-Indústria 2015 em Luanda no Polo Industrial de Viana. Apesar da reconhecida importância do evento dado que a feira ocorre num período especial para o país caracterizado pela baixa de preço do petróleo o que está a gerar níveis de crescimento muito baixos (menos de 5% para 2015 e 2016). Pelo que, seria esta uma sublime ocasião para promovermos o Made in Angola (i.e. a produção nacional), uma vez que neste tipo de evento as empresas aproveitam para exporem todo o seu potencial produtivo a novos e potenciais clientes bem como têm a possibilidade de verem como outras indústrias poderiam complementar o que fazem (poderiam identificar potenciais fornecedores, estabelecer parcerias).

Contudo, vale realçar que participam nesta Expo menos de 100 indústrias do nosso país. Isso em nosso entender deveria ser visto, por quem de direito, como um sinal de que algo fazemos mal!  

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Angola e a Zona de Comércio Livre da SADC (2)

Quando abordamos inicialmente este tema no nosso post de 4 de Agosto de 2014, sugerimos que a “liberalização do comércio entre dois países (ou mais) gera benefícios mútuos quando os mesmos se encontram em igual estágio de desenvolvimento, de contrário ganha mais o que estiver mais desenvolvido”. Neste post vamos usar o ultimo relatório sobre a competitividade das economias africanas (relatório de 2015) para melhor ilustrarmos alguns dos argumentos apresentados anteriormente.

A teoria da Vantagem Comparativa proposta por David Ricardo nos sugere que os países deveriam se especializar naquilo que sabem bem-fazer. Contudo, nesta reflexão vamos nos basear nos indicadores apresentados pelo World Economic Forum no seu Índice de Competitividade Global, para vermos o actual posicionamento da economia angolana quando comparada com outras da região austral.

Segundo o Índice de Competitividade Africana de 2015 a economia angolana é uma economia em transição, estando precisamente entre o estágio 1 – factor driven e o estágio 2 – efficiency-driven. Por outras palavras a economia angolana esta numa fase de transição em que procura deixar de depender dos recursos naturais e busca desenvolver processos produtivos mais eficientes e dar uma maior qualidade aos seus produtos.

A zona de comércio livre (doravante ZCL) da SADC visa integrar as economias da região austral permitindo uma livre circulação de produtos e serviços. Vale abrir um parêntesis para dizer que no que toca a livre circulação de pessoas essa questão, em nosso entender, parece não estar ainda bem definida. Para que haja livre circulação de produtos e serviços pensamos nós ser necessário primeiro a sua produção. Assim sendo, países que estejam no estágio 1 de desenvolvimento (dependentes dos seus recursos naturais) terão mais dificuldades do que aqueles que estão a procurar desenvolver processos produtivos mais eficientes (e produtos com maior qualidade). Essa dificuldade torna-se mais evidente num período em que o preço dos recursos naturais estiver em baixa devido a fraca demanda ou excesso na oferta.

Para o caso de Angola, neste momento o país procura desenvolver o seu processo produtivo (industrialização e parece que a partir de 2016 uma maior aposta na agricultura). Uma comparação entre o Índice de Competitividade das duas maiores económicas da região, Angola e África do Sul, podemos ver, abaixo, que Angola é menos competitiva em quase todos os requisitos havendo um ligeiro equilíbrio nos seguintes requisitos: Saúde e Educação Primaria e Eficiência do Mercado de Trabalho. Angola acaba por ter uma ligeira vantagem no Ambiente Macroeconómico. De resto, em factores como Infra-estrutura e Desenvolvimento do Mercado Financeiro dois factores que em muito contribuem para o surgimento de investimento privado (nacional e estrangeiro) o gap (diferença) entre os dois países é significativo.
 
Havendo um livre comércio entre essas duas economias podemos deduzir que a economia sul-africana estaria em melhores condições de suplantar a angolana, produzindo de forma mais eficiente produtos de maior qualidade. Angola precisaria de algum tempo para reduzir esse gap.
Comparando o Índice de Competitividade entre Angola e Moçambique, abaixo, apesar da ligeira vantagem de Moçambique podemos ver que existe um maior equilíbrio entre essas duas economias. O gap maior está na Eficiência do Mercado (de bens e serviços) onde Moçambique está muito melhor. Isso significa que um livre comércio entre elas poderia ainda permitir que ambas continuassem a desenvolver os seus processos produtivos visando produzir produtos de maior qualidade. 
 
Colocando as 3 economias numa ZCL, podemos ver que a economia sul-africana por ser a mais competitiva (ver imagem abaixo) deverá, em princípio, ser capaz de produzir bens e serviços de uma maneira mais eficiente e com maior qualidade, o que poderia fazer com que as outras duas economias (Angola e Moçambique) tivessem maiores dificuldades de darem continuidade do desenvolvimento dos seus processos produtivos uma vez que os consumidores nesses países poderiam ter já a sua disposição produtos com maior qualidade comparados com os de produção local que estariam ainda numa fase incipiente.
 
 
Visto desta forma, acreditamos nós, que sendo a integração na ZCL da SADC algo inevitável atendendo aos compromissos assumidos (a entrada segundo a Ministra do Comércio está prevista para 2017[1]), parece-nos evidente que Angola precisa entre 2016-17 aumentar o seu índice de competitividade por formas a estar o mais próximo possível da maior economia da região.

Se tivermos em conta que o gap verificasse em áreas que requerem grandes investimentos (exemplo: infra-estrutura, ensino superior, desenvolvimento tecnológico) e atendendo ao facto de Angola estar a passar por uma crise económico-financeira devido a redução da receita fiscal proveniente do petróleo, temos sérias dúvidas quanto a possibilidade de Angola reduzir essa diferença de produtividade nos próximos 1- 2 anos.

Essa constatação leva-nos a concluir que Angola (e os angolanos) poderá vir a ser adversamente incorporada na zona de comércio livre da SADC em 2017 a não ser que se façam ajustes na actual política de desenvolvimento adoptando algumas das medidas de temos estado a analisar em várias ocasiões neste blog (ex.: focos na industria manufactureira e no aumento de produtividade do sector agrário, exigir daqueles que tem sido os maiores beneficiários da actual política de desenvolvimento resultados no que toca a criação de empregos e volume para exportação).



[1] Fonte: http://www.voaportugues.com/content/angola-zona-comercio-livre-africa-austral/2937703.html